Resenha: Vida de Escritor, de Gay Talese

Não dá pra dizer que Vida de Escritor não entrega o que promete ao leitor na capa. “Entre restaurantes de Nova York e a Itália paterna, uma decisão por pênaltis e a questão racial nos Estados Unidos, um mestre do jornalismo literário escreve sobre seu ofício”, diz. Sendo este jornalista Gay Talese, dá para esperar relatos sobre grandes coberturas jornalísticas que o “pai do new journalism” teve a oportunidade de presenciar.

O que Talese entrega ao leitor não foge muito da inscrição na capa. De fato, ele conta sobre sua incursão no mundo gastronômico – incluindo aí a obsessão por um antigo prédio em Nova York que abrigou uma série de restaurantes falidos -, o fascínio pela jogadora de futebol chinesa que custou ao seu país um título mundial e até mesmo a cobertura do primeiro casamento interracial realizado em uma cidade predominantemente racista, e o tumultuado julgamento da mulher que teria decepado o pênis do marido.

Embora a narrativa de Talese seja primorosa (não foi por acaso que ele ganhou fama graças a ela), o escritor acaba enveredando pela história de seus pais na Itália, seus dias de repórter esportivo e suas incursões em motéis suspeitos.

A impressão que se tem é que o escritor aproveitou as antigas apurações – aquelas que nunca renderam matérias ou livros ou simplesmente foram recusadas por editores – para contar do ofício de jornalista e escritor. Entretanto, uma pequena fração das 509 páginas é dedicada a detalhar todo o processo. Boa parte delas se destina ao não desperdício das anotações arquivadas por Gay ao longo dos anos, e sobre as quais ele procrastinou por muito tempo (o que, de certa forma, serve de consolo para muitos de nós).

Nos posfácio, o jornalista Mario Sergio Conti elogia a diversidade de temas e personagens que Talese aborda. Editor da revista Piauí, ele entende de jornalismo literário e sabe que se trata de um grande autor do gênero, tirando o foco do repórter para o personagem. De fato, para alunos de jornalismo (tal como a que vos fala), não deixa de ser uma aula. Estão lá os assessores de imprensa gananciosos, personagens importantes que se recusam a falar, e, é claro, o bom olho para detectar assuntos interessantes e pouco explorados. Fica aquele sonho de abrir o jornal e não se deparar com o lead clássico, circunstancial ou descritivo.

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