Cínicas despedidas

A penúltima sexta-feira foi de luto para fãs de literatura. O falecimento de José Saramago representa grande perda para o mundo das letras, e não é preciso ter lido toda a sua obra para chegar a essa conclusão. A fama do escritor português o precedia, e não só por seu Nobel. Saramago era visto como crítico árduo da igreja e até do governo de seu país, situação que se agravou após um de seus livros – O Evangelho Segundo Jesus Cristo – ser banido nas escolas portuguesas.

O fato tem sido abordado em todas as “retrospectivas” e “homenagens” que o escritor tem recebido postumamente. São reprises de entrevistas, perfis em revistas de renome, séries de reportagens em portais de notícias. É claro que promoções dos livros de Saramago não poderiam faltar para completar o pacote.

Quase que simultaneamente, programas de TV, artigos e mais retrospectivas, além da exibição de “This Is It”, relembram a morte de Michael Jackson há um ano. O falecimento do cantor, aliás, foi marco sem precedentes na história da cobertura midiática. O Twitter parou, o Google parou. O furo veio do site de fofocas TMZ, e não dos titãs da mídia americana.

É natural que a morte de pessoas da estirpe de Michael e Saramago, cada um na sua área, gere comoção em massa e, consequentemente, repercussão na mídia. O que não dá pra compreender, no entanto, é a homenagem tardia, póstuma. Porque nem Michael Jackson, nem José Saramago precisavam dar mais motivos que o brilhantismo de suas carreiras para se provarem merecedores de tais tributos. Por que não homenagear em vida? Claramente, não chamariam tanta atenção ou gerariam tanto lucro.

Como se isso já não bastasse, acompanha-se pelo Twitter grupo de pessoas que, mesmo sem conhecer a obra do escritor, se dizem tristes e deprimidos com a morte de “seu escritor preferido”. Hipocrisia é o que menos se precisa numa hora dessas. Se não leu Memorial do Convento – do escritor, só li de fato Ensaio Sobre a Cegueira, e mesmo assim durante a produção do filme baseado na obra – corra atrás. Mas não se junte ao coro dos que nunca valorizaram um grande escritor em vida.

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3 comentários sobre “Cínicas despedidas

  1. Confesso que nunca li nada do Saramago, só vi o filme “Ensaio sobre a cegueira” e achei uma metáfora genial.

    Saramago me cativou naquele documentário que assistimos na faculdade (que eu já tinha assistido no colégio) pela seu vasto conhecimento e pela sua simplicidade.

    Sem dúvida, foi uma grande perda da literatura e é uma pena que as pessoas só passem a se interessar mais em suas obras agora que sua morte está em evidência por ser recente. Embora não o tenhamos mais entre nós, ele já foi imortalizado em suas obras.

    http://boulevardofideas.blogspot.com ;D

    bjs

  2. Sandra disse:

    De Saramago, apenas li Ensaio sobre a Cegueira e confesso ser até hoje um dos livros mais difíceis que já li, por toda a escrita do português de Portugal, a falta de pontuações e parágrafos corridos, o que vim a saber depois também que era uma marca propriamente dita do escritor também. Quase desisti desse livro..rs, mas fui em frente. É uma obra sensacional e imagino que as outras não sejam diferentes. Tenho vontade de ler o último livro que ele lançou, Caim, se não estou enganada no nome.
    Quanto à pessoa de Saramago, nunca fui fã e também acho hipócrita demais celebrar agora, depois de sua morte, suas obras e vida, sendo que muita gente sequer jamais leu qualquer coisa a respeito dele. Mas a gente sabe que o povo brasileiro é assim. E por aí vai ser sempre.
    Enquanto escritor, sim, é uma grande perda! Mas as obras permanecem.

    beijos
    p.s. vc está escrevendo menos ou é impressão minha? rs
    saudades das suas dicas de filmes, viu dona Nathália!!1

    • Nathália disse:

      verdade, ando escrevendo menos aqui no blog. montei um portal de notícias e agora, trabalhando com assessoria de imprensa, escrevo o dia todo. acabo ficando meio que sem inspiração hehe

      pior que essa hipocrisia toda nem é só do brasileiro, como vimos na cobertura da morte do MJ. mas enfim…

      Ensaio Sobre a Cegueira é realmente difícil a princípio. depois a gente acaba se acostumando ao estilo dele, né? e depois de tentar ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo, onde quase não existem pontos – as orações são separadas por vírgulas – me dei por satisfeita com o Ensaio =)

      obrigada pela visita!

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