Detectando o falso Verissimo

[Atualizado]

Que a internet não é a fonte mais confiável de informações, todo mundo sabe. Luis Fernando Verissimo está aí pra provar. O escritor, provavelmente um dos mais lidos hoje no Brasil, ganhou uma nova personalidade online. Você já deve ter recebido alguma mensagem com a assinatura dele ao fim de textos legais, interessantes, engraçados, que são transmitidos facilmente via e-mail.

Só um detalhe: na maioria, não são dele. A confusão começou com textos que lembravam, de certa forma, o estilo do escritor – engraçado, irônico, inteligente. Porém, a coisa toda evoluiu. Não só atribuíam a ele textos que não eram de sua autoria – Quase (Sarah Westphal), Filtro Solar (Baz Luhrmann), Tipo Assim (Kledir Ramil), Dar Não é Fazer Amor (Tatiane Bernardi) e Depoimento Sobre as Drogas (Vitor Trucco), entre muitos outros – como passaram a assinar, por ele, textos de autoria desconhecida e que pouco tinham a ver com o Verissimo que nos contou as comédias da vida privada, escancarou as mentiras que os homens contam e criou personagens inesquecíveis como a Velhinha de Taubaté, Ed Mort e o Analista de Bagé.

A essa altura do campeonato, dificilmente esse tipo de coisa ainda incomoda um autor que, mesmo que a contragosto, passa a aceitar que sua obra não está mais nas suas mãos. Ser creditado por algo que não escreveu pode causar, no máximo, algumas dores de cabeça com leitores desavisados, como contou no Globo:

Me dizem que rola um texto na internet com minha assinatura baixando o pau no “Big Brother Brasil”. Não fui eu que escrevi. Não poderia escrever nada sobre o “Big Brother Brasil”, a favor ou contra, porque sou um dos três ou quatro brasileiros que nunca o acompanharam.

(…)

Também me dizem que, além de textos meus que nunca escrevi (como textos igualmente apócrifos do Jabor, da Martha Medeiros e até do Jorge Luís Borges), agora frequento a internet com um Twitter. Aviso: não tenho tuiter, não recebo tuiter, não sei o que é tuiter. E desautorizo qualquer frase de tuiter atribuída a mim a não ser que ela seja absolutamente genial. Brincadeira, mas já fui obrigado a aceitar a autoria de mais de um texto apócrifo (e agradecer o elogio) para não causar desgosto, ou até revolta. Como a daquela senhora que reagiu com indignação quando eu inventei de dizer que um texto que ela lera não era meu:

– É sim.

– Não, eu acho que…

– É sim senhor !

Concordei que era, para não apanhar. O curioso, e o assustador, é que, em textos de outros com sua assinatura e em tuiters falsos, você passa a ter uma vida paralela dentro das fronteiras infinitas da internet. É outro você, um fantasma eletrônico com opiniões próprias, muitas vezes antagônicas, sobre o qual você não tem controle.

– Olha, adorei o que você escreveu sobre o “Big Brother”. É isso aí !

– Não fui eu que…

– Foi sim !

Agora o autor tem essa história pra contar e provavelmente sequer deixou de vender livros por conta dos apócrifos na internet. Nem dá pra dizer que seus propagadores estejam fazendo algo de errado, já que estão apenas passando adiante um texto legal que viram por aí, o que é sempre válido.

Mas não deixa de ser uma pena. O mesmo preconceito que muita gente tem hoje em dia com o Caio Fernando Abreu e a Martha Medeiros, por exemplo, pode manter a distância entre Verissimo e um sem número de leitores que poderiam se encantar pelas suas crônicas, não fosse o compartilhamento em excesso no Facebook. O falso Verissimo faz um desserviço até para quem acha que já conhece os textos de um autor que, aos quase 80 anos, continua se reinventando – e que nos últimos dois ou três anos lançou alguns dos melhores trabalhos de toda a sua carreira.

Por isso, aqui vão algumas dicas para saber se você está recebendo o Verissimo original e porque isso é importante:

  1. Leia seus livros. Você com certeza conhece alguém que tenha pelo menos o Mentiras que os Homens Contam. Assim, está familiarizado com o estilo do escritor e reconhecerá de cara algo que não é dele. E olha que ele é um autor versátil, que vai muito além das crônicas pelas quais é conhecido, passando também por tirinhas, poesia, romance e muito mais.
  2. Leia suas colunas nos jornais. No jornal O Globo, que é o que leio, tem texto novo do autor toda quinta-feira e domingo. É mais do que o suficiente para manter sempre contato com o que ele anda escrevendo, além de poder saber desde as peripécias de sua neta Lucinda até comentários sobre futebol, política, economia, cinema e muitos outros assuntos em voga.
  3. Duvide e dê crédito. Se veio por e-mail ou apareceu no Facebook, há boas chances de que o texto não seja dele. Fique à vontade para passar adiante, mas procure se informar, mesmo que numa pesquisa rápida no Google, se o texto é mesmo de Luis Fernando Verissimo ou não. Em caso negativo, é bem provável que o verdadeiro autor aprecie o fato de que você se preocupa em dar o crédito correto a um trabalho que ele produziu.
  4. Visite este site. O acervo não é tão grande, mas dá pra se divertir com textos originais do escritor.
  5. Procure traços característicos de seus textos. Como apontei acima, Verissimo é um autor que passeia com desenvoltura por muitos tipos de texto. Ainda assim, é possível reconhecer muitos de seus traços mais comuns, que acabam entregando sua autoria – o que só ajuda a dar ainda mais personalidade ao seu trabalho.

Independente disso, continue lendo na internet – seja em blogs, portais ou mesmo no Facebook. A leitura é sempre um exercício válido, seja devorando um exemplar de Machado de Assis ou o mais novo lançamento do John Green. O que Verissimo conquistou – lugar cativo nas listas dos mais vendidos, livro após livro – é só um testemunho de seu impacto enquanto escritor que consegue dialogar com seu público, a grande “Família Brasil”, como ele chamaria.

Falando sobre amores e desamores, encontros e desencontros, amizades e traições, Luis Fernando Verissimo dá voz ao tipo brasileiro no qual o próprio leitor se reconhece (ou ao menos um amigo ou um primo distante), o que faz dele um dos autores com uma produção mais prolífica atualmente e um dos mais bem sucedidos escritores brasileiros dos últimos anos. E esse é um crédito que ninguém tira dele.

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19 comentários sobre “Detectando o falso Verissimo

  1. Flávia Monteiro disse:

    Se recebo um texto falso do Veríssimo e acho ele bacana para encaminhar aos amigos, eu repasso sim. Mas antes eu excluo o nome dele (Veríssimo) e coloco no lugar “autor desconhecido”.

  2. babelikos disse:

    Estava procurando essa crônica do Veríssimo pra encaminhar pra uma colega que me mandou justamente o tal texto do BBB, que motivou essa crônica aí, que você reproduziu. É realmente assustador como as coisas ganham vida própria – e uma vida às vezes pra lá de esquisita – na Internet.

    A propósito, bacana o blogue. Não esqueça de regar as flores.

  3. Fe disse:

    POR FAVOR, RECEBI UM TEXO COM TITULO SOBRE GLOBALIZAÇÃO, SINCERAMENTE NÃO ACHEI Q FOSSE DELE, MAS ME TIRE ESSA DUVIDA. LEIA E MANDE RESPOSTA FE_ILOVEYOU@YAHOO.COM.BR

    A melhor definição de GLOBALIZAÇÃO que os professores nunca ensinaram.
    Pergunta:
    Qual é a mais correta definição de Globalização?

    Resposta:
    A Morte da Princesa Diana.

    Pergunta:
    Por quê?

    Resposta:
    Uma princesa inglesa com um namorado egípcio, tem um acidente de carro dentro de um túnel francês, num carro alemão com motor holandês, conduzido por um belga, bêbado de whisky escocês, que era seguido por paparazzis italianos, em motos japonesas. A princesa foi tratada por um médico canadense, que usou medicamentos americanos. E isto é enviado a você por um brasileiro, usando tecnologia americana (Bill Gates) e provavelmente, você está lendo isso em um computador genérico que usa chips feitos emTaiwan e um monitor coreano montado por trabalhadores de Bangladesh, numa fábrica de Singapura, transportado em caminhões conduzidos por indianos, roubados por indonésios, descarregados por pescadores sicilianos, reempacotados por mexicanos e, finalmente, vendido a você por chineses, através de uma conexão paraguaia
    Isto é *GLOBALIZAÇÃO!!!*
    E QUEM SOU EU?
    Nesta altura da vida já não sei mais quem sou…
    Vejam só que dilema!!!
    Na ficha da loja sou CLIENTE, no restaurante FREGUÊS, quando alugo uma casa INQUILINO, na condução PASSAGEIRO, nos correios REMETENTE, no supermercado CONSUMIDOR.
    Para a Receita Federal CONTRIBUINTE, se vendo algo importado sou CONTRABANDISTA. Se revendo algo, sou MUAMBEIRO, se o carnê tá com o prazo vencido INADIMPLENTE, se não pago imposto SONEGADOR. Para votar ELEITOR, mas em comícios sou MASSA . Em viagens TURISTA, na rua PEDESTRE, se sou atropelado ACIDENTADO e no hospital viro PACIENTE. Nos jornais sou VÍTIMA, se compro um livro LEITOR, se ouço rádio OUVINTE. Para o Ibope sou ESPECTADOR, para apresentador de televisão TELESPECTADOR, no campo de futebol TORCEDOR.
    Se sou corintiano, SOFREDOR. Agora, já virei GALERA. (se trabalho na ANATEL , sou COLABORADOR) e, quando morrer… uns dirão… FINADO, outros… DEFUNTO, para outros… EXTINTO, para o povão… PRESUNTO… Em certos círculos espiritualistas serei… DESENCARNADO, evangélicos dirão que fui… ARREBATADO…

    E o pior de tudo é que para todo governante sou apenas um IMBECIL !!!
    E pensar que um dia já fui mais EU.

    Luiz Fernando Veríssimo.

    • Fe, é possível dizer com certeza que esse texto não é do Verissimo. Ele tem crônicas de cunho político – muitas, aliás – , mas esse estilo não combina com ele. Se quiser passar o email adiante, recomendo que coloque “autor desconhecido”, só pra garantir 😉

  4. Nathália,
    Também não gosto de perpetuar fraudes na internet, geralmente deleto esses emails. Até que eu gosto do texto “Quase”, mas é bom saber que não é dele, já o li com outras “autorias” famosas… vi este ultimamente, fiquei pensando se é verdadeiro, porque não achei nada negando que era dele, mas sei lá, há algo estranho neste texto, parece muito com os que atribuem ao Jabor e não ao Veríssimo… vc conhece?

    Homem inteligente é que sabe das coisas!!!

    Tenho apenas um exemplar em casa, que mantenho com muito zelo e dedicação, mas na verdade acredito que é ela quem me mantém. Mulher vive de carinho. Dê-lhe em abundância. É coisa de homem sim, e se ela não receber de você vai pegar de outro.

    Beijos matinais e um ‘eu te amo’ no café da manhã as mantém viçosas e perfumadas durante todo o dia. Flores também fazem parte de seu cardápio – mulher que não recebe flores murcha rapidamente e adquire traços masculinos como rispidez e brutalidade.

    Respeite a natureza. Você não suporta TPM? Case-se com um homem. Mulheres menstruam, choram por nada, gostam de falar do próprio dia.

    Não faça sombra sobre ela. Se você quiser ser um grande homem tenha uma mulher ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ela brilhar, você vai pegar um bronzeado. Porém, se ela estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda.

    Aceite: mulheres também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar. O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar os próprios. Ele sabe que, preservando e cultivando a mulher, ele estará salvando a si mesmo.

    É, meu amigo, se você acha que mulher é caro demais, vire gay.

    Só tem mulher quem pode!

    Luiz Fernando Veríssimo

    • oi Cleide, obrigada pela visita! bom, na minha humilde opinião, esse texto não tem o dedo do Verissimo, não. apesar de escrever muito sobre as mulheres, ele não é de fazer esse tipo de texto, enumerando dicas… gosta mais de contar ‘causos’, criar personagens, as verdadeiras comédias da vida privada.

      pra ser sincera, esse texto pode até nem ser do Jabor. esses são escritores que ganharam muitos copy-cats, que tentam desenvolver o mesmo estilo. no caso do Verissimo, ele tem uma linguagem muito própria e inconfundível… é questão de costume, mesmo. e uma dica que quase nunca falha é checar a grafia da “assinatura”. qualquer coisa diferente de “Luis Fernando Verissimo” tem grandes chances de ser falso.

  5. Uma dica boa pra saber se o texto foi escrito por um autor famoso (Veríssimo ou qualquer outro) ou por um qualquer querendo um pouco de atenção por tabela: olhem o número de exclamações.

    Textos de falsários normalmente terminam com uma lição de moral seguida de vários !!!!!, exatamente como no exemplo que apareceu nos comentários: “E o pior de tudo é que para todo governante sou apenas um IMBECIL !!!”.

  6. Marcia disse:

    Parabéns pelo texto Nathália. Esse é um daqueles que eu gostaria de ter escrito. Fico tão fula da vida quando recebo aquelas coisas melosas e de auto-ajuda com a falsa autoria do LFV que nunca consigo ter a cabeça fria que você teve para desmentir.

  7. JRicardo Miranda disse:

    Gostei muito ..Parabéns…Estamos realmente ás voltas com estes “autores desconhecidos” que por medo , vergonha ou sei lá o que, assinam com nome de autores consagrados.
    Digo: Arrisquem-se, saiam do armário

  8. Julio Cesar disse:

    Interessante o seu texto, até então ainda não tinha me atentado para isso, acredita? (até pq, alguns textos, convenhamos, são bem “engenhosos” e com uma dinâmica de escrita bem “cativante”). No mais, infelizmente não conheço a obra de Veríssimo a fundo a ponto de discernir o que pode ou o que não pode ser do escritor (Não conheço AINDA, é bom deixar frisado). Vou ficar mais atento e procurar direcionar um olhar mais “apurado” aos e-mails que por ventura receber intitulado como sendo de Luís Fernando V.

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