Ao mestre, com muito carinho

Essa foi a última semana na faculdade – desse semestre, pelo menos. Provas finais feitas, presentes de amigo oculto trocados, férias. Esse período aprendi a segurar uma câmera (e pouco além disso), conheci os primórdios da comunicação, descobri que sei ler do TP, y otras cositas más. Porém, o que mais ficou do meu primeiro contato com a Comunicação Social foi um senso crítico aumentado, exponencialmente até.

Isso, graças ao professor Bibiano. Professor de Linguagens, foi através dos mais belos e variados textos que Bibiano nos mostrou uma língua bela – a nossa. E foi através dos textos jornalísticos mais mal escritos que o professor mostrou o quão importante é a organização das ideias, a perfeita concordância, os perigos da ambiguidade. Eu, que já não era fã dos erros de Português (ou de qualquer outro tipo) em publicações, me vi ainda mais crítica do que leio, e principalmente do que escrevo.

E foi aí que parei para pensar no quanto nossos professores moldam nossa vida, atitudes e opiniões. A minha primeira professora, na verdade, foi minha mãe.  Entre muitas outras coisas, ela me ensinou que ler era legal. Muitas das minhas memórias de infância incluem minha mãe lendo algo – que fosse uma revista, trabalhos de alunos, a Bíblia. Eu achava o máximo ver os olhos ela correndo pela página, tão ligeiros. Foi então que aos 4 decidi que já era grande o suficiente para aprender a fazer o mesmo. Era uma verdadeira sede de leitura. E a primeira palavra que ela me ensinou foi to-ma-te. Me lembro como se fosse ontem. Nós duas, sentadas ao sofá, usando um banco como suporte. Minha mãe escreveu algumas palavras em um papel de pão (essa memória pode ser implantada, admito), me ensinando as sílabas mais simples. E eu aprendi o resto sozinha. Resultado: gosto de juntar sílabas até hoje.

Tia Rozana me ensinou que eu podia faltar aula e ainda assim dar conta do recado. Como estudava na mesma escola onde minha mãe trabalhava (e que por sinal ficava em Tebas, distrito de Leopoldina, sinônimo de milhares de idas e vindas de ônibus ao longo dos anos), ela às vezes dizia que eu podia ficar em casa se estava chovendo, por exemplo. E quando eu voltava, eu ainda conseguia pintar, seguir o tracejado, fazer colagens. Esse aprendizado eu carrego comigo até hoje!

Anos depois, com a Lecília, redescobri os prazeres da leitura, com a coleção Vagalume. Ela me emprestava livros, eu pegava na biblioteca. Dois anos depois, eu já havia lido alguns clássicos, incluindo Machado de Assis e Shakespeare. Foi mais ou menos nessa mesma época que descobri que não poderia ser uma arquiteta, como imaginava, porque dependeria de uma coisa chamada Matemática, que cada vez ficava mais complicada.

Com as inúmeras professoras de Inglês que tive, cheguei à conclusão de que a educação estava mesmo falida. Uma delas, porém, despertou minha paixão pela língua: Tatiane foi a primeira que parecia saber do que estava falando (e sabia mesmo) e me fez ver como era divertido ver uma série e compreender o que era dito sem depender das legendas. Acho que devo a ela cada centavo do que ganhei como professora de Inglês, anos depois.

Com a Maria Helena, descobri que, se tudo desse errado e eu não conseguisse fazer algo de que realmente gostasse, poderia virar professora do Cefet. Seria uma bela oportunidade, andar de carro novo, faltar de vez em quando, não fazer esforço algum para que os alunos aprendessem e ser bem paga para tal. Infelizmente, foi um ano inútil de “aulas” de História, que só aprofundou meu desgosto por aquilo que (não) aprendi: a Antiguidade. Foi o Magno, ainda no Cefet, que me mostrou que eu estava no lugar errado. Muito exigente (e nem sempre educado), ele nos fazia montar circuitos e diferenciar diodos e calcular isso e aquilo. Foi quando eu desisti do curso por inteiro.

Já no Equipe, no ano seguinte, descobri que a Física não é, na verdade, o inferno na Terra. Foi o Ormeu que me mostrou o lado interessante da calorimetria – veja só! Foi ele quem me proporcionou o meu primeiro 10 na matéria e as fórmulas na prova, me libertando da decoreba – tudo isso usando uma camiseta do Rolling Stones. E veio o Josenilson, com seu jeito de baiano arretado, iluminar as terças-feiras. Jose me mostrou que eu não precisava andar com a gramática debaixo do braço para compreender a língua. Não eram apenas os exemplos que ele dava, fazendo piadas com os nossos nomes e inventando apelidos. Era a simplicidade com que nos fazia compreender até o que considerávamos complicado. Além disso, os debates que ele sempre propunha abriram os horizontes daquela menina de 16 anos. O Marco Antônio e o Flávio mostraram o lado divertido da Biologia, que eu já tinha me acostumado a não gostar. Desde imitações do reino animal a trocadilhos engraçados, eles me ensinaram a ver com outros olhos, e por isso sou muito grata.

Depois de tantas boas memórias, me recuso a acreditar – e a aceitar – que a educação não tem jeito. Acredito, isso sim, que os bons professores tem o poder de transformar, tanto o bom aluno quanto o ruim. Querendo ou não, são pessoas que tem um papel importantíssimo em nossas vidas, e a quem deveríamos ser um pouco mais agradecidos. A eles, então, o meu muito obrigada.

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3 comentários sobre “Ao mestre, com muito carinho

  1. Nath!!!

    lembro de uma professora que eu tive de português no ensino fundamental. E devo tudo a ela quando eu vou fazer uma redação, ela era super exigente, mas hoje quando preciso escrever uma redação lembro de todos os ensinamentos que ela me passou.

    professor faz muito diferença, eles meio que abrem o livro pra vc mergulhar para dentro. ^^

    kisses

  2. “Educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles que pouco sabem – por isto sabem que sabem algo e podem assim chegar a saber mais – em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam que nada sabem, para que estes, transformando seu pensar que nada sabem em saber que pouco sabem, possam igualmente saber mais. O mundo não é, o mundo está sendo”.
    Paulo Freire.

    não precisamos dizer mais nada ; )

    beijo!dessa professora que ainda acredita na Educação como fonte e base de tudo. =)

  3. Isabella Netto disse:

    É, as 6 e meia da manhã dou uma passada no seu blog e me surpreendo com esse texto que me fez voltar uns seis, sete anos. Que delícia relembrar aqueles momentos bons: do Cefet e do Equipe, nem se fala! Obrigada amiga Nath por essa descoberta: saber o quanto esse tempo era bom e não sabíamos; sem preocupação, compromissos inadiáveis e as gargalhadas incalculáveis! Beijos e saudades…

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